O cheiro da tinta

Ainda vejo as coloridas manchas nas mãos, na parede e no chão, no cigarro, na caixa do leite, no copo, no aparelho de som que tocava fita.

Ainda sinto o cheiro da sarja e do pinho, sinto o prego e o martelo na mão, percebo ainda aquelas luzes que entravam, pelas quatro janelas, e ainda ouço aquelas músicas que vinham dos filmes.
A luz, a música, meus largos gestos eram mais coloridos.
E os dias passavam corridos, à noite dormia, embriagado em memórias das cores do dia.
Aquelas janelas se foram, também a casa, e o aparelho que tocava fitas…
Mas ainda sinto o cheiro da tinta.

Poeta

Não são as sensações e os sentimentos que me inquietam.
Ou a ânsia, essa constância em despertá-los dia a dia.

É a inconsciência, sempre presente,
Mas necessária, quase inerente,
Do saber a que me servem,
Não como ao homem comum,
Tomando o sentir como ínterim ou meta,

Eu sirvo-me, absorvo sem sentir o sentir,
Como uma ponte, uma tangente.
Pois quando sinto é em progressão geométrica,
Renteio o amor demente, e nutro o sofrer descabido.
Dos mil cigarros, de noites em claro sob cinzas…

Até que todo o sentir do mundo por fim explode em uma doçura limítrofe.

E lá em algum Olimpo, junto a Deuses desconhecidos,
O patético e débil, o inconsciente e inconsequente ser humano dá lugar,
À exuberante e assombrosa consciência,
De um semi-deus, o Poeta.